quinta-feira, 29 de abril de 2010

Caos

Nascido do nada, recebido pelo mundo, crescendo no tudo limitado. Aprendendo nos limites, vivendo nos limites...eles são reconfortantes. A sua existência dá-me uma segurança emocional enorme. Olho pela janela e vejo um caos lá fora. É assustador, mas apetecível também. A curiosidade guia-me para lá, ela quer-me lá fora. Mas sou ensinado a não sair, só quando estiver preparado, ou quando tiver a força para me libertar. Para me libertar dos limites, da segurança, para o caos...

É nesta altura que aprendo, que vivo...inconscientemente tomo partido numa caminhada por entre entidades, desafios, acontecimentos...aquilo a que chamamos vida. Peço licença ao mundo para caminhar sobre ele, para o viver...e eu ofereço a minha presença, as minhas acções. Faço um acordo com ele. Ele dá-me caminho para eu dar as minhas passadas, eu certifico-me que deixo um rasto, ou pelo menos tento...

Deparo-me com obstáculos e contra-tempos, vejo-me a falhar, caminho e atrás de mim vai uma brisa de vazio. Os meus pés levantam o pó, que cai exactamente no mesmo sitio. Os dias passam por mim, um a um. Só me apercebo quando tudo se torna automático, numa sequência de derrotas.

Mergulhado na miséria que criei, olho para trás e lembro-me de tudo o que fiz. Isto é que é liberdade? A liberdade estava dentro daqueles limites...que me protegiam do caos...


A liberdade tem de ser merecida e trabalhada. Aquele caos lá fora é propositado, é o teste que prova quem está preparado para a vida. Não esperes que a vida seja extraordinariamente boa...ou verdadeiramente horrível, ela é o que fazemos dela. Não esperes um pão duma migalha, nem uma fortuna por um dia de trabalho. É possível....afinal de contas, tudo isto é um caos. Mas e se pegares nesse caos e fizeres algo com ele? E se substituíres a sorte pela recompensa? A fortuna pela preparação do futuro? A estagnação pela acção? Esta miséria por uma vida a sério...feita por ti mesmo. O teu caos organizado.


29 de Abril de 2010

domingo, 18 de abril de 2010

És como te vejo?

Como me vês? Ver...ver fornece-te aparências, não ilumina existência, nem responde às questões que inconscientemente mais te interessam. Aparências podem ser enganadoras...facilmente um olhar vazio é confundido com um outro detentor de significado de certa forma misterioso, até místico. Defendido pela fria e útil forma de manipulação emocional.

Estou certo que não, o que tu vês nunca poderá ser tal e qual o que sou. Talvez na tua perspectiva sim, sou um puzzle completo e montado, não pensas necessária a interacção mais esforçada, o desafio. A minha forma de pensar e ver o mundo são inevitavelmente diferentes das tuas. As tuas percepções cognitivas nunca serão como as minhas. Diferente mundo, circunstâncias, influências, pessoas. Consciências distintas.

O máximo, e o melhor que podes fazer é esforçar-te para resolver o enigma aparentemente inexistente. Procura o que te parece não existir. O mundo, e principalmente as pessoas estão cobertas de "capas", mascaram o seu íntimo numa rotina real e mental. Ser subestimado, por vezes bastante útil, e na maior parte das vezes o mais interessante. Como o desconhecido é apetecível.
Entrar no íntimo de alguém pode parecer difícil...mas basta mudar a forma como vês exactamente tudo, o que sentes. Moldar-te à individualidade alheia. Invadir a psique de outro.

Não há nada que te instrua mais sobre ti próprio como a "invasão emocional" que podes abater sobre outro, seja de que forma for. A capacidade visual abstracta serve perfeitamente o propósito, quando bem usada. É tentador, torna-se viciante, desenvolve-se de forma demasiado interessante, acaba...não interessa como acaba. O percurso é o mais importante, e o fim é o que tiraste do que "viste", e o quão isso te moveu, o quão aprendeste com o "espreitar" emocional. Sentes-te diferente? Este é o significado. Lida com ele como melhor entenderes. A consciência não deixa de ser a tua. Tiveste o interesse de "espreitar", resta-te decidir se a corrente da acção se mantém interessante. Primeiro vemos pela fechadura o que nos espera atrás da porta, só depois é que decidimos se entramos.

18 de Abril de 2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Empatia Única

Aliciado e semi-satisfeito num êxtase mergulhado em hormonas emergentes no calor de todo aquele ambiente tão pessoal e agradavelmente pesado. Hipnotizado, querendo a realidade que sinto. Quero sentir o cheiro...o sabor. Não quero só satisfazer o desejo, quero saboreá-lo, cada momento...cada toque...Faço-me cúmplice no jogo de sedução mútuo. Sinto-me como o sedutor e o seduzido. Somos guiados pela demanda, na altura, imperativa. Satisfazer o desejo. Concretizá-lo. Para isto sintonizamo-nos, criamos a empatia pessoal mais forte que se pode criar com alguém. As palavras transformam-se em gestos, gestos mágicos, sinais. Sinais completamente perceptíveis, que denunciam um pedido, ou até uma investida. Sincronização ardente.

Dançamos naquela harmonia pura, numa simbiose sensorial e emocional. O prazer sexual e o amor mostram-se como dois químicos que quando juntos, fazem desaparecer todo o mundo à volta. Nada mais interessa, nada mais existe. Só aquele momento, só aquele prazer, só aquele amor...só ela. Só nós.


14 de Abril de 2010

sábado, 10 de abril de 2010

Altruísmo Egocêntrico

Atribuição do sentido mais abstracto que, incoerentemente a realidade consegue obter, defendida por ilusões desmascaráveis.

Desvanecido e derretido numa consciência em acção de copycat física. Caos real, abstracção mental. Sou exímio no relaxamento racional e emocional. Sinto tudo, nada sofro. Onde está a ambiguidade? - Retórico. Alegria pura, prazer absoluto. Todo o Passado obsoleto, Futuro agradavelmente resoluto, Presente passageiro mas aliciante. Sou um apogeu utópico, base em teoria surreal, com prática impossível, numa concretização simples.

Excelência autêntica na realização, numa pureza personalizada em egoísmo inofensivo, da arte abundantemente violada e deformada. A Arte de Viver.


09 de Abril de 2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ansiedade

Olho para o que me rodeia, com olhos de ver? Não...vejo como que de relance, não observo. Oiço vozes, ruído, música...irrelevante. Restrinjo as minhas capacidades visual e auditiva a uma captação sequencial de imagens e som...seguidas de um envio de sinais ao cérebro. Limito estes sinais. Eles apenas me dão consciência que não estou sozinho e tenho um mundo que me rodeia, nada mais. Este é o único impacto que teêm na minha mente emocional e na racional. Estas duas entraram numa simbiose sensorial, equilibrando-me de alguma forma que desconheço...mas sinto...e é bom. Quero o que sinto, sinto o que quero. Estou numa estagnação mental. O facto de saber que esta é temporária não me afecta, presentemente. Pois a minha consciência reside nos limites que eu próprio lhe impus.

Sinto que me domino. Sinto que possuo o que é meu por defeito mas que no entanto na detecção do menor perigo mental, é-me removido o direito e o meu papel é trocado. Passo a ser controlado pela incoerente e auto-destrutiva consciência tanto emocional como racional, mais uma vez em cooperação, mas com um diferente objectivo – vulnerabilizar-me. Como posso manter este domínio? Como posso controlar o que sinto e penso? Como posso inibir-me do medo, ira, ansiedade. Controlar-me. Poder sentir e pensar o que quero. Como estou agora...como posso faze-lo quando quero e mais preciso?

Nestas situações sou apoderado pelas emoções. As mãos suam-me e tremem, o estômago encolhe, a garganta estreita, começo a hiperventilar, o coração acelera, sinto um sufoco geral. As emoções envenenam-me o pensamento, cortam-me a concentração. A minha atenção é desviada do assunto pertinente, do meu suposto objectivo na situação. O meu único pensamento reside na forma de satisfazer o único desejo que tenho na altura...escapar, pois controlar deixou de ser uma opção válida, pelo menos na minha mente envenenada. E se não tiver para onde fugir? Não confio em mim próprio para resolver a situação. Não me sinto capaz. Não sou capaz. Mas quero ser. Quero conseguir controlar o que é meu, o que sou. Quero manter a calma, a serenidade...e ver-me capaz de fazer o que é suposto fazer, no meu intelecto, no meu pensamento racional, purificado de emoções negativas. Quero poder.

05 de Abril de 2010

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Saber é Poder, Querer Saber é Viver

A realidade é tão relativa. Cada um vê o mundo duma forma tão distinta. Eu vejo aquilo do qual estou consciente que existe, acontece. Tudo o resto é uma realidade, mas não a minha, pois nenhuma eventualidade nesta realidade que não é minha, não me interessa. Não conheço, não existe, não acontece. Para mim nada disso é real. Podem existir situações no mundo que me poderiam deixar com um sentimento de tristeza, mas tal não acontece porque não está na minha realidade. A minha é apenas um ramo da árvore das realidades, dum tronco em que a realidade é a universal, onde nos seria possível ver a Verdade, sê-la, conhecer tudo o que há para conhecer, saber, sentir...para termos uma consciência que nos dá a informação toda. Donos da Verdade.

Isto parece tudo tão encantador. Quão encantador é estar a par de tudo o que acontece em tudo o que faço? Como será poder sentir toda a alegria do mundo...e toda a tristeza, que parece muito mais abundante nos dias em que vivemos. Não nos perderíamos nessa realidade? Nessa massiva e misturada quantidade de existências, verdades, sentimentos. Levava a um colapso de consciência. Que aconteceria ao desejo viciante que o Homem tem em conhecer? Desvendar o mistério. Informar-se. O mundo seria o maior aborrecimento. Que vida tão entediante. Não existe primeira de vez de nada, não acontece nada de novo na minha vida, sinto-me repudiado pela exaustão de saber. Sou tão consciente de tudo. Há sempre algo que não precisava de saber...Não pedi isto tudo. Vendo bem, não pedi nada. Eu vou em busca, ou então sou buscado. Eu não me preocupo se tenho tudo o que quero, mas sim tudo o que posso, o que para mim significa que há sempre algo que quero, não tenho e procuro conseguir.

Nada acontece numa realidade parada, e uma realidade só pára quando o seu consciente cessa a sua busca, dá-se por vencido (desiste de conseguir o que quer) ou vencedor (tem tudo o que deseja). Mas que autoridade tem o individuo dono de tal consciência para decidir o quando e o quê do desfecho? A realidade é sua, mas mesmo esta existe subjugada à realidade universal. E apenas esta última dará desfecho à sua realidade, ao seu consciente, à sua vida.

Portanto, se o jogo não pára, como jogador também não posso parar, continuarei a satisfazer o meu desejo de conhecer, saber e sentir. Ao mesmo tempo vou alimentando-o, procurando novas existências, novos potenciais desejos. Sem desejos ou objectivos não temos por onde conduzir a vida, e uma vida sem rumo toma o seu próprio rumo, rumo ao fim.


29 de Março e 1 de Abril de 2010