sábado, 27 de março de 2010

Sou Tudo ou Não Sou Nada

Não quero nada, não sinto nada. Desconectei-me de mim próprio, desliguei-me do mundo. Neste momento sou um ser vivo apenas, andando em território alheio. Retirei a mim mesmo o direito à existência, ainda que vivo, não existo. Como é possível? Como consegui separar-me exactamente de tudo o que sou Eu? Onde opero eu então? O meu Eu foi-me retirado por vontade própria, e agora sou um ser vivo racional mas...não emocional? Ou fui levado pelo meu Eu, e ele está apenas a ver o que faço, não me controlando, deixando-me num ambiente de insegurança, sofrimento, mas a que sou imune. Pois...livre de emoções. Que materialismo radical, que anulação sentimental, que nada este é. Eu sou, ou melhor o que parece ser Eu, mas de mim nada tem. O hospedeiro tenta subjugar o Eu, mas este confronta-o:


- Confessa hospedeiro, és como és e nada sentes em relação a isso.

- Sentir? De que falas? Isso é coisa tua.

- Então confessa, base no teu raciocínio. És livre de arrependimento e remorso. Portanto é só dizeres o que queres, objectivo. Agora não estou aí a tentar controlar aquilo que acho certo.

- Para mim o Passado não significa nada, e claro não me deixou qualquer arrependimento, vivo no Presente viajando pelo Futuro. Nada me interessa. Sou objectivo, apenas sensorial. Sigo o prazer para todo o lado. Para lá das coisas com que te preocupas Eu. Ninguém me interessa, nada importa, transporto apenas o fardo da minha sobrevivência, tudo o resto é pó que passa pelos meus pés sem que os sujem. Pergunto Eu, porque me pedes para confessar o que já sabes? Sabes o que sou.

- Era para ter a certeza que continuavas a ser exactamente o que eu não sou. Pois isso significa que não podes deixar de ser meu hospedeiro. Mais tarde ou mais cedo, a tua vida não existencial passará a um nada coerente - morto e não existencial. E mesmo sem os muitos sentimentos que tu deverias ter ao dares-te de conta deste facto, o teu raciocínio tão lógico e livre chegará a uma conclusão. A conclusão é que tu tens de tomar uma decisão certa. A corda que nos prende tão fortemente, hás de ter sempre um pouco de Eu dentro de ti que fará com que te submetas a uma coexistência metafórica e real. Porque sem mim não vais sobreviver.

-Não preciso de ti.

-Limita esse núcleo de sensações. A tua fome será cada vez mais forte e o teu corpo mais exigente. Vais ser levado a uma exaustão sensorial, de prazer. O teu núcleo implodirá. Serás subjugado por ti mesmo. Auto-destruição. Desces e ficas no nível mais baixo de todos, aquele que não existe, não é, nada. Precisas de mim, eu darei um rumo às tuas sensações, eu dar-lhes-ei significado - sentimento. Eu limitá-las-ei de forma a proteger-te(Me) e todos aqueles que nos rodeiam. Vamos ser e existir, montar o equilíbrio que é fundamental neste mundo.

- Toda esta ilusão...Somos um só. Eu sou Eu.

Preciso de sensações, preciso de sentimentos, preciso de saber que vivo, amo e sou amado. Preciso de saber que não estou sozinho, preciso de parar de reflectir sobre mim mesmo. Colocar a introspecção de lado, viver e reflectir com todos os que me rodeiam. Harmonia entre o que é certo e o que é desejado. Todo este método, de certa forma egocêntrico, coloca questões e não mostra soluções. Pois há questões que são feitas para ser respondidas, há outras que são para ser reflectidas. Reflectir é interessante, mas de nada serve se fazes disso a tua vida. "Viver" em reflexões.

26 de Março de 2010

4 comentários:

  1. Não estás sozinho; O teu génio acompanha-te na criação de textos cada vez melhores.

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  2. Muito obrigado Melancia. Continuo à descoberta. Equilibrando-me entre a vivência e a reflexão.

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  3. Não estás sozinho. Apesar do tempo, continuo à distância de um telefonema, sim? ;)

    You're special my dear, always were! U gotta know that.

    Mayara *

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  4. I know that! Um destes dias recebes essa call ;P

    Espero que tenhas gostado do que leste.

    Beijinho!*

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